Nítido & Obscuro

Objeto Particular, São Paulo, 2025

O trabalho de Bolota não se deixa definir com facilidade. Talvez categorias sejam clausuras para uma obra que pressupõe liberdade de se modificar a cada exposição e a cada provocação — seja em assunto, seja em técnica. Desenhos e pinturas em suportes variados, nos quais a passagem de um ao outro já não se deixa captar com facilidade, tensionando os limites dessas categorias. Também esculturas que deturpam a escala original, agigantando o objeto até quase torná-lo arquitetura. Do objeto palpável no mundo ao imaginado, fabulado ou onírico. Acenos surrealistas, definição que, ao ser nomeada em voz alta, perde seu sentido e suplica por novas palavras. Nem uma coisa, nem outra. Binômios que se contradizem: ambos, nenhum dos dois, ou algo no meio. Nítido e obscuro, opaco e transparente, dentro e fora, aqui e lá. A exposição se organiza como uma boneca russa de dúos: quatro conjuntos de obras, cada qual com duas partes; dois textos, duas lentes, dois olhos. Através da imagem dos óculos, Bolota traz à tona uma pergunta antiga da filosofia: o que de fato vemos quando olhamos para o mundo? Ao lembrar-nos de que a visão também é traiçoeira, a resposta que surge é contraintuitiva: ao tentar olhar para fora, a lente termina por refletir o dentro.Num tragicômico de cores vibrantes, seu trabalho parece nos distrair da seriedade que habita atrás dessa primeira camada risonha. Mas algo atravessa a visão e se insinua, mesmo sem passar inteiramente pela percepção. Buscando nitidez, chegamos talvez à parte obscura do processo criativo. O que significa, para um artista, duvidar do que vê?

Catalina Bergues